terça-feira, 6 de maio de 2008

O lugar onde escrevo

Da condição de tais novidades no elevado grau de inocência & candura deduzir a minha pastoral existência de carniceiro de palavras aqui, seria contudo precipitado. O nosso destino significa turbulência; significa «viver complicado»; (e aquela «vida simples», que surge de imediato na consciência de cada leitor culto é só uma fórmula nostálgico-irrealista, sobre a qual já na Roma tardia se podia sorrir resignadamente.) Pergunta-me pelo meu local de trabalho? Pelo que eu quero? Pelo que eu sou?
: Espere, até eu não ser mais.


Arno Schmidt, excerto de «O lugar onde escrevo»

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Espécie de poeta

O poeta é de uma espécie que olha na sombra do sonho pela sua oportunidade: a de uma perdida no futuro Idade do Ouro. Quando no mundo real, maquinizado como pintura geométrica de Léger, o homem procura um destino próprio, incontrolável pelo "Grande Irmão", ele acaba sempre por topar com um livro de poesia. Essa é uma das atribuições do poeta, outorgada por qualquer misteriosa lei universal: abrir uma porta no coração dos que procuram reflexos do além dourado nas coisas e nos passos destes mundos.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Ditos Antigos

Se Deus nos dá entendimento,
usemos pois nosso talento.

Se o pássaro se detém por muito tempo em terra,
estragam-se as suas asas, e as penas são pesadas.

Os instigadores da guerra
são feios em si mesmos
e horrorosos em suas obras.

Matilde de Magdeburgo

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Pastores da vida inquieta

Vem de lá do extremo oriente, irmão humano, com o vermelho sol a despontar atrás de ti, caminha até onde a terra te deixar. Quando chegares ao fim da terra e ao princípio do mar, e o sol te apresentar nosso passado em movimento, num jogo equívoco de nuvens, eu estarei no farol que interroga a noite, e partilharei contigo o mistério que começa no mar e não acaba nunca dentro de nós, pastores da vida inquieta, a ocidente.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Irracional poético

Acredito em milagres, na aura das pessoas, em seres angelicais, nas palavras dos profetas, em visões, em discos voadores, em fadas, no céu, no paraíso, no inferno e no purgatório, nos deuses e em deus, na boa erva e no vinho, na infinitude da mente, no yin e no yang em tudo presente, na beatitude, no bem e no mal, no pássaro sagrado, no casamento místico, na transmigração das almas, em intermundos e realidades paralelas, acredito em mim como filho do divino e da natureza, mas, sobretudo, acredito no coração espiritual da humanidade partilhado na casa arquetipíca comum em que todos habitamos.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Fala do lenhador

A poesia tem de ser uma benção que nos cai na existência. Experimentem rachar lenha no campo, numa tarde de inverno. Aproxima-se uma névoa que, vinda do mar, tudo envolverá dentro de pouco tempo. A poesia é para mim esse estar-aí, rachando lenha, falando com os cães e o gato, afastado do mundo num silêncio que o próprio mundo busca para si, para conseguir sonhar, reencontrar-se, sarar-se, e abrir-se como uma rosa de sangue húmida pelo orvalho da manhã.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Terra fértil, negra

A poesia tem de enraizar-se na existência. A terra onde ela medra tem de ser fértil, negra, esboroar-se nas mãos como puré de batata cheio de moléculas que gritam por vida organizada, microrganismos estupefactos com o universo, ADNs de seres mitológicos possuídos de irreprimível vontade fecundadora, onde eu, debruçado à janela do fabuloso e anárquico inconsciente, tangendo vou a lira, iluminado pelo deus-dançarino, olhando maravilhado a obra esplendorosa da terra ao meio-dia, assomo de divindade na infinita escuridão do cosmos.